sábado, 21 de junho de 2008

Dona Maria Rebôlo

Num distrito perto de Cabrobró, vivia Dona Maria Rebôlo. Ganhou esse apelido quando seu ex-marido a largou, literalmente descartou a pobre coitada. E no interior nordestino, rebolar é o mesmo que jogar fora.

D. Maria vivia pro mercantil que seu antigo marido deixou rebolado junto com ela e seu filho, Francisco Antônio, a quem ela vivia azucrinando.

- Fronscontôin! – assim ela o chamava – Sai do mêi desse chão quente minino! Ah se um carro te pega ainda te mato dum cascudo!

- Que carro homi! Coisa mais difícil é passar uma mota, avali um carro!

- Deixe de ser atrevido e passe pra dentro! Bora!

Francisco Antônio não tinha sossego.

Vez ou outra, voltando da feira, D. Maria era abordada por um bando de pivetes sem camisa gritando.

- Dona Maria Rebôlo! Dona Maria Rebôlo! Ó a doida! Ó a doida! IIEEEEIIIIHHHH!

Rodeavam a coitada e ela ficava uma fera.

- Sai de retro bando de satanás, infiliz das costa ôca, prejura, marmota da bixiga frôxa, condenado dos seiscentos diabo! Sai do mêi ruma de bascúi!

E saía arrastando as sandálias no chão de terra batida. Antes de chegar em casa, reclamava do filho...

_ ´Mas minino tu já ta chupando manga quente de novo, inda nem almoçou! Vai te assiá Fronscontôin!

E ia pro seu quarto, o único lugar daquela sequidão que ela podia chorar em paz.

Mas o destino, caro leitor, é o senhor dos ventos.

Um certo dia, apareceu por lá uma barraca nova na feira, a barraca do Seu Gonçalo, que tinha as mangas mais doces que o sertão já viu.

Seu Gonçalo assim que viu D. Maria tratou logo de saber quem era a dona das coxas mais fogosas de Pernambuco. Ficou sabendo de toda a história numa bodega e foi logo alertado pelo dono.

- Tem coragem de encarar? Tome cuidado que essa daí é mais grossa que parede de igreja.

- Apôis é dessas que eu gosto!

- Êta cabra macho! Pois se tu conseguir apanhar ela, nunca mais tu paga uma dose de cachaça na minha budega!

Era o que Seu Gonçalo queria, cachaça de graça e uma mulher pra passar o resto da vida. Aceitou a aposta.

Pra ganhar a atenção da mal-amada, todo dia de feira Seu Gonçalo lhe agradava.

- Uma manga-rosa pra flor do sertão!

E toda feira era assim, bem que D. Rebôlo tava gostando, se perfumava toda só pra ir à feira – coisa que só fazia em época de novena – e já parava pra conversar com o novo feirante.

Numa dessas conversas Seu Gonçalo criou coragem e disse...

- Eu vô lhe fazer uma pergunta e quero que você me fale a verdade. Por caus de quê o povo aqui lhe chama de Maria Rebôlo?

Dona Maria pensou em partir a cara dele ao meio, mas alguma coisa no olhar daquele mestiço lhe atraía e ela contou toda sua triste história com os olhos úmidos. E foi ali mesmo, no meio da feira e da poeira que Seu Gonçalo abriu seu coração.

- Ôxi, e eu aqui pensando que era por causa desse seu rebolado que me deixou doidin!

Aí meu amigo, o coração de Dona Maria derreteu feito açúcar no leite, e antes do inverno chegar já estavam juntos.

Dona Maria hoje em dia perdeu o apelido que o passado lhe dera, deixou de infernizar Francisco Antônio e vive atrás do marido, que ganhou a aposta.

- Gonçal fi duma rapariga, tu já ta bebo infiliz!

Seu Gonçalo não tem sossego.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Dr. Cabeça

Dr. Paulo Ubiratan, de Porto Alegre, RS, em entrevista a uma TV local, foi questionado sobre vários conselhos que sempre nos são dados...

Exercícios cardiovasculares prolongam a vida, é verdade?
O seu coração foi feito para bater por uma quantidade de vezes e só... não desperdice essas batidas em exercícios. Tudo gasta-se eventualmente. Acelerar seu coração não vai fazer você viver mais: isso é como dizer que você pode prolongar a vida do seu carro dirigindo mais depressa. Quer viver mais?Tire uma soneca!!!

Devo cortar a carne vermelha e comer mais frutas e vegetais?
Você precisa entender a logística da eficiência... . O que a vaca come? Feno e milho. O que é isso? Vegetal. Então um bife nada mais é do que um mecanismo eficiente de colocar vegetais no seu sistema. Precisa de grãos? Coma frango.

Devo reduzir o consumo de álcool?
De jeito nenhum. Vinho é feito de fruta. Brandy é um vinho destilado, o que significa que, eles tiram a água da fruta de modo que vc tire maior proveito dela. Cerveja também é feita de grãos. Pode entornar!

Quais são as vantagens de um programa regular de exercícios?
Minha filosofia é: Se não tem dor...tá bom!

Frituras são prejudiciais?
VOCÊ NÃO ESTÁ ME ESCUTANDO!!! ... Hoje em dia a comida é frita em óleo vegetal. Na verdade ficam impregnadas de óleo vegetal. Como pode mais vegetal ser prejudicial para você?

Flexões ajudam a reduzir a gordura?
Absolutamente não! Exercitar um músculo faz apenas com que ele aumente de tamanho.

Chocolate faz mal?
Tá maluco? !!!! Cacau!!!! Outro vegetal!! É uma comida boa pra se ficar feliz !!!

E lembre-se: A vida não deve ser uma viagem para o túmulo, com a intenção de chegar lá são e salvo, com um corpo atraente e bem preservado. Melhor enfiar o pé na jaca - Cerveja em uma mão - tira gosto na outra - muito sexo e um corpo completamente gasto, totalmente usado, gritando: VALEU !!! QUE VIAGEM!!!


P S.: SE CAMINHAR FOSSE SAUDÁVEL O CARTEIRO SERIA IMORTAL...!

A Carne é Fraca

Resolvi relatar essa história pra mostrar o quanto eu era submisso e indeciso diante de situações delicadas.

Tinha chegado em casa pontualmente as sete. Minha mulher estava na sala, ao lado do cachorro, vestida de vermelho com um decote que Fafá de Belém ficaria no chão. Me beijou o pescoço e falou baixinho no meu ouvido:

- Tenho uma surpresa pra você!

“Hoje é dia!”

- Surpresa é? Adoro surpresas!

- Pois feche os olhos.

Fechei esperando ouvir o que não ouvia a semanas, quando num grito só, que quase me arranca a cabeça ela berrou:

- É GREVE!!!

- O quê?...Greve?!

- Isso mesmo queridinho, greve de sexo. Ou você para de fumar ou nunca mais dá uma tragadinha na mamãe aqui. E tenho dito!

Brochei na hora. Onde já se viu, quinze anos de cigarro, dez de casamento e ela me vinha com essa! Odeio surpresas.

Mas, como disse, era submisso e comecei a tentar parar. E pra ser bem detalhista vou descrever os dia mais agonizantes dessa minha peleja medieval.

1º DIA (TERÇA)

Acordei animado, confiante, minha mulher preparou meu velho pão com ovo e uma bela xícara de...

- Leite?!

- É benhê. Esqueceu que café dá vontade de fumar? Beba tudinho ta, meu bebezinho zinho zinho!

Pão com leite... me senti um velho banguelo e cagão. Mas, pelo bem da minha virilidade, tomei tudo.

2º DIA (QUARTA)

Naquele dia o café foi gemada. Até que tava boa.

No escritório todos me parabenizavam pela iniciativa. Até a Manuella, minha secretária (fumante super ativa) veio me elogiar.

- Parabéns Sr. Gaspar, sempre tento parar e nunca consigo, sua mulher deve estar orgulhosa.

Só consegui falar depois que ela saiu, aquele decote hipnotiza qualquer um.

- É, ela ta.

3º DIA (QUINTA)

Cheguei em casa literalmente asilado, suando frio e morrendo de fome. Comi feito um porco e fui pra varanda jogar meu xadrez pra ver se esquecia do cigarro depois da janta.

Na hora de ir pra cama ainda tentei fazer um carinho pra vê se o negócio engatava mas fui correspondido com uma cotovelada.

- Ainda não, foram só três dias.

Achei que já tinha passado uma semana. Dormi inconformado.

5º DIA (SÁBADO)

O que eu estaria fazendo num sábado a noite? Bebendo com os amigos e fumando pra caralho.

Pensei nisso enquanto assistia a super programação da TV com a patroa e o cachorro fungando no meu pé.

Na hora de ir dormir mais uma tentativa frustrada de uma noite de loucuras. Masturbação? Que é isso, ainda tenho meu orgulho!

9º DIA (SEM NOÇÃO DO TEMPO)

Quebrei minha cafeteira a custa de cabeçadas. A boa notícia era que tinha arrumado dois amigos pro xadrez, o Copo de Leite e a Dona Gemada. Eram legais, só que não jogavam muito bem e o Copo enrolava mais que rabo de porco.

Minha mulher passou perfume antes de deitar, me animei, coloquei até um pijama que ela adorava. Quando cheguei de mansinho...outra cotovelada.

- Não querido, vi hoje num documentário da TV que a nicotina demora mais ou menos um mês pra começar a sair do sangue.

Um mês! Não dormi aquela noite.

10º DIA (ESQUECE)

Minhas olheiras pareciam duas bochechas extras. Tava tão estressado que acabei discutindo com o Copo de Leite e com a Dona Gemada numa partida. Aquilo não tava me fazendo bem, já estava perdendo os amigos.

Acordei no meio da noite assustado. Juro que vi o cachorro tocando acordeon e um maço de cigarros dançando tango com a minha mulher!

Era demais pra mim.

- CHEGAAAA!!!

Dei com o acordeon no cachorro, joguei minha mulher na cama, peguei o maço e saí correndo desesperado no meio da rua.

A última coisa que lembro é de ter fumado todos os cigarros. Acordei na vala, quebrado, porém realizado.

Fui em casa. Minha mulher arrasada, o cachorro quebrado e eu feliz da vida. Juntei minhas coisinhas e saí pela porta da frente. Nunca mais voltei.

2 ANOS DEPOIS

Hoje, meu amigo, tomo meu café (café mesmo) feito pelas habilidosas mãos de Manuella (a do decote hipnotizador), tenho um novo emprego, uma nova cafeteira e todas as noites fumo um cigarro junto com Manuella, na cama, exausto de tanto sexo. Pelo bem da minha virilidade.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Ladrão de Bicicletas

Desci do ônibus apressado, tinha marcado de beber com uns amigos as oito daquela quinta e eu já tava em cima da hora. Fora que não gosto de atrasos, principalmente em se tratando de assuntos etílicos.

Atravessei a avenida já sentindo cheiro do limão e ouvindo os bêbados quando fui interrompido por uma senhora. “Meu rapaz, por favor, meu filho acorrentou a bicicleta dele no poste e quebrou a chave dentro do cadeado, você pode me ajudar a tirá-la de lá?”, a velha disse isso com a cara mais penosa do mundo segurando um martelo e um alicate, “eu só tinha essas ferramentas lá em casa”.

Olhei pro filho, um pivete branco e remelento com uma cara de quase-choro olhando pra bicicleta. Pensei: bicicleta pra pivete vale ouro, tive uma do Batman que só fui largá-la com quatorze anos, ainda com rodinhas. Os gritos dos bêbados ficaram mais altos e o cheiro da cachaça já me arrepiava e me enchia a boca de saliva (maldita consciência).

Peguei as ditas ferramentas e comecei a bater na corrente com toda a raiva de quem perde uma farra com os amigos numa quinta à noite. O barulho atraiu a atenção de todos, inclusive de uma viatura da polícia que logo tratou de passar em frente pra saber do que acontecia. Por sorte eles não pararam, talvez pensassem: por que um pivete, um cara lindo e bem intencionado (eu), e uma senhora com cara de beata queriam roubando uma bicicleta?

Depois de exaustivos dez minutos de pancadaria e barulheira, a porcaria da corrente arrebentou. O garoto engoliu o choro e cuspiu um sorriso, a senhora quase monta um altar pra mim, eu saí com aquela cara de quem transou com camisinha e com a plena certeza de que em alguma outra vida, eu fui um ladrão de bicicletas.