D. Maria vivia pro mercantil que seu antigo marido deixou rebolado junto com ela e seu filho, Francisco Antônio, a quem ela vivia azucrinando.
- Fronscontôin! – assim ela o chamava – Sai do mêi desse chão quente minino! Ah se um carro te pega ainda te mato dum cascudo!
- Que carro homi! Coisa mais difícil é passar uma mota, avali um carro!
- Deixe de ser atrevido e passe pra dentro! Bora!
Francisco Antônio não tinha sossego.
Vez ou outra, voltando da feira, D. Maria era abordada por um bando de pivetes sem camisa gritando.
- Dona Maria Rebôlo! Dona Maria Rebôlo! Ó a doida! Ó a doida! IIEEEEIIIIHHHH!
Rodeavam a coitada e ela ficava uma fera.
- Sai de retro bando de satanás, infiliz das costa ôca, prejura, marmota da bixiga frôxa, condenado dos seiscentos diabo! Sai do mêi ruma de bascúi!
E saía arrastando as sandálias no chão de terra batida. Antes de chegar em casa, reclamava do filho...
_ ´Mas minino tu já ta chupando manga quente de novo, inda nem almoçou! Vai te assiá Fronscontôin!
E ia pro seu quarto, o único lugar daquela sequidão que ela podia chorar em paz.
Mas o destino, caro leitor, é o senhor dos ventos.
Um certo dia, apareceu por lá uma barraca nova na feira, a barraca do Seu Gonçalo, que tinha as mangas mais doces que o sertão já viu.
Seu Gonçalo assim que viu D. Maria tratou logo de saber quem era a dona das coxas mais fogosas de Pernambuco. Ficou sabendo de toda a história numa bodega e foi logo alertado pelo dono.
- Tem coragem de encarar? Tome cuidado que essa daí é mais grossa que parede de igreja.
- Apôis é dessas que eu gosto!
- Êta cabra macho! Pois se tu conseguir apanhar ela, nunca mais tu paga uma dose de cachaça na minha budega!
Era o que Seu Gonçalo queria, cachaça de graça e uma mulher pra passar o resto da vida. Aceitou a aposta.
Pra ganhar a atenção da mal-amada, todo dia de feira Seu Gonçalo lhe agradava.
- Uma manga-rosa pra flor do sertão!
E toda feira era assim, bem que D. Rebôlo tava gostando, se perfumava toda só pra ir à feira – coisa que só fazia em época de novena – e já parava pra conversar com o novo feirante.
Numa dessas conversas Seu Gonçalo criou coragem e disse...
- Eu vô lhe fazer uma pergunta e quero que você me fale a verdade. Por caus de quê o povo aqui lhe chama de Maria Rebôlo?
Dona Maria pensou em partir a cara dele ao meio, mas alguma coisa no olhar daquele mestiço lhe atraía e ela contou toda sua triste história com os olhos úmidos. E foi ali mesmo, no meio da feira e da poeira que Seu Gonçalo abriu seu coração.
- Ôxi, e eu aqui pensando que era por causa desse seu rebolado que me deixou doidin!
Aí meu amigo, o coração de Dona Maria derreteu feito açúcar no leite, e antes do inverno chegar já estavam juntos.
Dona Maria hoje em dia perdeu o apelido que o passado lhe dera, deixou de infernizar Francisco Antônio e vive atrás do marido, que ganhou a aposta.
- Gonçal fi duma rapariga, tu já ta bebo infiliz!
Seu Gonçalo não tem sossego.
